sexta-feira, 9 de abril de 2010

Algo sobre largar tudo e ser feliz!

Muitos dos que acompanham o blog e a história da Tuty já sabem como tudo se deu. Muitos não. A verdade é que fiz exatamente o que o título sugere: larguei tudo e vim ser feliz aqui. Posso garantir que estou feliz, mas também ainda estou tentando sobreviver.

Tenho lido que tem muita gente no mesmo barco, ou compartilhando a mudança de rumos ou desabafando a falta de coragem para fazer algo assim. Dia desses foi a Constanza, do Saídos da Concha, que deu a letra. Foi bem no primeiro de abril que ela contou pro mundo sua verdade: "deixei o meu mestrado em História Moderna para me dedicar totalmente ao projecto Saídos da Concha. Decidi apostar naquilo que completa os meus dias, que me dá vontade de sair da cama de manhã, que me estimula, que me empurra para a frente". Lindo, né?! E vou contar que é assim mesmo que a gente se sente. Já no dia seguinte vem a Simone, do Lélli Lu, se abrindo ali no blog, mostrando ao mundo seus medos e com uma pergunta que certamente ninguém sabe responder: "Quanto vale um sonho?". E hoje abro o Corporativismo Feminino para me deliciar com o humor daquelas garotas e me deparo com um post da Heleninha falando sobre como ela, ao contrário de nós mas não menos impactante, largou a moda para fazer engenharia.

Aí, assim como fiz meio escondidinha ali nos coments da Simone, vou fazer aqui para vocês, vou contar um pouco dessa minha história/saga/loucura - chame como quiser.

Sou jornalista por formação. Estudei aqueles quatro anos e nessa semana descobri que o povo da sala me chamava de "freira". Não, nunca fui santa, passei foi longe. É que eu nunca ía pro bar. Eu tava sempre com sono, pois tinha um estágio que realmente me fazia trabalhar como gente grande, e então hoje acho que nunca curti aqueles quatro anos como deveria. Enfim, me formei com honras, com uma linda nota no TCC e um belo emprego nas costas. Isso faz quatro anos e pouquinho. Nesse tempo trabalhei em duas multinacionais, fiz aulas de inglês e espanhol, entrei pra equipe de corrida da empresa, viajei pra fora do país, fui responsável por várias revistas internas, conheci muitos jornalistas, tinha cartão corporativo, notebook, tudo da empresa. Quem lê deve pensar: nossa, puro glamour! Mas olha, vou te dizer: tudo tem um preço. E o preço que eu pagava pelo suposto glamour de ter o meu nome em um cartão de visita de uma multi era acordar às 5h da manhã, correr para não perder o fretado, passar duas horas no trânsito para ir e outras três para voltar. Trabalhar à noite, no feriado, em casa. Atender jornalista no celular, no sábado, querendo falar de demissão na fábrica! NÃO! Pára o mundo que eu quero descer - era a minha frase mais constante.

Em paralelo a tudo isso eu me casei no final de 2008 e comecei a viver uma vida totalmente nova. É uma delícia ter marido. A parte chata é quando você chega às 20h do trabalho e não tem a menor coragem de fazer janta. Nunca.

Aí que nos dias que antecederam o Natal de 2008 fui pro interior buscar a vovó para passar as festas na minha casa nova. Minha vó é estilista desde sempre. Daquelas que olham o vestido da mocinha da novela e faz um igual, sem precisar de molde ou de desenho. Cheguei lá no interior e fui logo dizendo: "vó, comprei esse um metro de tecido, me ensina a fazer uma bolsa de amarrar?" Ela ensinou, e juro que eu aprendi, comprei mais uns tecidinhos e botei a maquininha da mamãe pra trabalhar. Era uma Singer dessas caseiras, e eu adorava. Quando tinha que costurar na industrial da minha vó eu quase costurava os dedos, e jurava que nunca teria uma arma daquelas para mim. Eu e minha amiga Sâmia levamos as bolsas que nós fazíamos (ensinei aquele modelo pra ela, ela trazia a máquina dela pra cá e a gente costurava no meu quarto, depois do trabalho, em vez da janta) para o trabalho e o sucesso foi imediato. Criamos um site e fizemos as primeiras vendas. Pra mim foi um grande gás. Adorei ter uma distração paralela.

Nessa época algumas coisas aconteceram na minha vida pessoal também, minha sogra ficou doente, meu marido precisava dar uma força pra ela, e eu tenho essa "mania" de fugir de doença. Talvez para alguns pareça egoísmo, talvez não. A verdade é que não sei lidar com isso, e já passei da fase de me lamentar e sofrer pela minha própria falta de sentimento.

As coisas no trabalho iam de mal a pior. Lindo dia minha diretora chega falando que vai sair da empresa e que não sabe ao certo o que será de nós. Pronto! Eu estava em crise profissional. Tracei um desenho bem bonito para mim, que não adiantou de nada. Pedi para fazer outras coisas, para mudar de assessoria para comunicação interna, para cuidar de internet, para fazer qualquer coisa diferente da coisa que eu fazia (que estava totalmente paralisada aguardando a definição de rumos da empresa), e tudo o que ouvi foram diferentes entonações de nãos. Ainda tive que ouvir que eu fazia muito bem o meu trabalho, e que por isso não deveria fazer nada de diferente. Heloou? Eu achava um verdadeiro desperdício passar cinco horas no trânsito, mais nove na empresa fazendo um trabalho que eu faria em três horinhas lá de casa mesmo, e aquele monte de bolsa para costurar na minha casa. Eu me achava inútil, sabe? Poxa, eu sabia que tinha potencial e meu chefe também sabia disso, mas e daí? Quando a empresa paralisa, ninguém quer saber disso... O ruim de você trabalhar em uma empresa grande é que muitas vezes você é só um número, mesmo. E em fase de reestruturação é exatamente assim que funciona. Eu era um número que não deveria mudar de área, que não podia fazer coisas novas, um número cujas ideias não estavam valendo muito enquanto a maior preocupação da empresa eram os sindicatos e não meros mortais com crises existenciais.

E então eu coloquei a mão na cabeça e me perguntei: o que é que eu tô fazendo aqui??? Sabe aquele curso de inglês que me foi prometido para que eu mudasse de emprego? Nada. Sabe aquela continuidade nas viagens internacionais? Nada. Sabe o celular da empresa para a galerinha do mal parar de ligar no meu particular e eu gastar horrores retornando? Nada. Sabe aquele glamour, aquela vida bôua, aquilo que desejei e lutei para ter na vida profissional? Pois é, foi engolido pela troca de presidente da empresa seguida de reestruturação na diretoria. Ou seja, eu não tinha mais nada para fazer naquele lugar. E enquanto isso as bolsas cortadas se acumulavam no quartinho.

Então, como já diz a música: Um certo dia resolvi mudar, e fazer tudo o que queria fazer. Chamei o chefs na salinha de reunião e disse "tô saindo". Fiquei mais 10 dias. Saí na véspera do feriado de Corpus Christi, em junho passado, e na minha primeira segunda-feira de não trabalho tomei o maior porre do mundo na praia com uma amiga que é cabeleireira e não trabalha na segunda (é, devo ter síndrome dos 18 anos, porque aos 26 eu ainda acho divertido tomar um porre) . Foi a carta de alforria. Pronto! Agora sim eu tava pronta para ser feliz.

Nessa época eu já vendia os produtos da Tuty em algumas lojas e participava da feira da Benedito Calixto, em Pinheiros, todos os sábados, o dia todo. Já criava umas peças diferentes de bolsas e começava a me aventurar no Flickr. Fiz uma loja virtual bem bacana pra Tuty, arregacei as mangas e decidi que isso ía dar certo. Em outubro o Shopping Penha inaugurou um modelo novo de locação de quiosque, no qual a parte física do quiosque já é deles e eu só tenho que pagar o aluguel, sem me preocupar com mais nada. Entrei em contato e fechei o contrato. Em 1º de dezembro a Tuty inaugurou seu primeiro ponto de venda próprio, todinho dela. =)

(preciso contar que nesse meio tempo eu não conseguia mais costurar com a máquina da mamãe, que era bem devagar. Aí eu comprei uma industrial, tipo aquela da minha vó que eu jurei que nunca teria, rs)

Não posso dizer que foi ou que é fácil. Na verdade é muito difícil. Trabalho muito mais horas por dia, tudo aqui depende de mim. Às vezes nem sei como encontro tempo para postar no blog, fazer janta, cuidar do quiosque, lavar roupa, ir pra academia e sair com os amigos. Mas a verdade é que estou muito mais disposta que antes, e tô sempre procurando um jeito de fazer tudo. Na Tuty eu crio, eu produzo o suficiente para vender num shopping (é gente, é muita coisa - às vezes peço arrego e mando uma coleção inteira para a oficina de costura da minha tia fazer), eu cuido das finanças, do RH, do controle de qualidade, do marketing, da assessoria de imprensa, cubro as folgas das funcionárias no shops, e daqui a pouco tô indo pro centro da cidade comprar material para a coleção da Copa do Mundo. São sete dias por semana, trabalho todos. Trabalho menos aos domingos, mas o shopping não fecha, então eu também não posso parar. Mesmo assim eu te digo cara amiga: eu sou MUITO mais feliz.

Agora mesmo, enquanto escrevo aqui, vejo no twitter o povo reclamando do trânsito e do metrô. E eu tô de pijama, hoho. O sol tá batendo no meu pé e esquentando, eu tô ouvindo o Bom Dia Brasil e pensando no que vou fazer para o jantar já que minha prima vem me fazer uma visita. Eu vou assistir o último capítulo da novela das seis, e se der tempo vou até almoçar com a minha mãe, que trabalha perto de onde vou fazer compras. Não vou nem saber se o metrô parou e não vou comer comida de restaurantes que eu não aguento mais.

Não faz nem um ano que mudei totalmente de rumo. Como disse para a Simone, pode ser que a Tuty não chegue a ser uma grande empresa e que eu nunca ganhe novamente o salário que ganhava antes (sinto saudade também do meu ticket de R$ 17/dia). Mas sabe, eu não choro mais. E isso é muito bom. Um dia fui jantar com os amigos da antiga empresa e uma delas perguntou pro meu marido: "E aí Marquinho, a Thi tá mais feliz?" E ele respondeu assim: "Nossa Rê, você não faz ideia. Ela não reclama de trabalho, ela não chora nem à noite e nem de manhã, ela não fica mais doente uma vez a cada 15 dias e acho que ela está até mais bonita, você não acha? "

Um comentário desses não tem preço. Não tem salário que pague, não tem glamour que valha. E respondendo à Simone: um sonho não tem preço, não tem valor e a hora de ser feliz é sempre agora.

=)

7 comentários:

Glau disse...

Amiga, me identifico mto com vc! Adorei a parte: "E eu tô de pijama, hoho. O sol tá batendo no meu pé e esquentando, eu tô ouvindo o Bom Dia Brasil e pensando no que vou fazer para o jantar".. olhei pra mim e me vi na mesma situação!

Pois é, amiga, o trabalho é imenso e não só de glamour vivemos (e nem de pijama ficamos o dia inteiro), mas vale! vale tornar nosso sonho em realidade! parece clichê, mas é a mais pura verdade!

Sempre te falo isso: olho pra vc e vejo mto trabalho, muito esforço, muita dedicação e MTO, MTO sucesso!

Bjao querida!
Glau

Carol'Zices disse...

Thyara, se eu contar que agora, lendo o teu blog no meu horário de almoço (como faço todos os dias) tô com o olhos cheios de lágrimas e com uma vontade enorme de nem deixar o chefe voltar pra dizer que sai??? Pois é. As escolhas as vezes não são fáceis. mas acho q nós as tormamos mais difícias pela falta de croagem, pela incerteza do que virá. Mas como saber o que vai acontecer se não arriscar?^tenho uma história mais ou menos parecida (sem a parte do cartão corporativo, do celular e do glamour ohohoh) mas tenho muitas idéias e vontade. A credito sim, na minha vocação. Faz um bem emorme ver que dá certo sim, fazer a nossa história. E o teu relato, hoje para mim, foi muito especial. Me dá mais certeza que o que eu quero é ser feliz. E muito.

ps: o chefe chegou. hehehehe

beijos e muuuito sucesso!

Inusitados acessórios disse...

Me emocionei... tô passando por essa situação: mudar e fazer tudo q eu sempre quis fazer!
Obrigada por abrir seu coração!
Beijosssssssssss

Renata disse...

Nossa tinha que comentar, você me tocou 2 vezes tanto pelos projetos como largar tudo e ser feliz...Li no escritório mas nao podia responder de lá poderia ser monitorada. Mas meus olhos se encheram d'agua porque esta também é minha vontade... e acredito ser de muita gente. Pena que não sou muito boa na parte de vendas...e me falta coragem para fazer o que você fez não deixar de trabalhar e ainda fazer o que dá prazer. Parabéns! Te desejo muito sucesso!!!
Um abraço,
Renata

✂ ✂ ✂ ✂ ✂ ✂ ✂ ✂ ✂ ✂ disse...

Thiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! \o/
Sem palavras!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Ontem, meu pai veio almoçar aqui em casa e eu pedi pra ele ler o seu comentário no meu blog. Contei rapidinho a sua história pra ele. Agora vou pedir pra ele vir ler esse post! Vou mandar AGORA o link por e-mail pra ele. Ele quer porque quer que eu não pare de tentar concursos, sabe? Ele acha que devo levar a Lélli Lu paralelamente. Eu sei que a preocupação dele é com a minha segurança, pois ele deseja que eu não dependa de ninguém, pra nunca ficar na mão de ninguém. Eu entendo ele. Ele acredita no meu potencial artístico, mas ele se sente inseguro quanto a eu me dedicar apenas à Lélli Lu. Ai, Thi, não é fácil. Já pelo meu marido, eu esqueceria todo o resto e me dedicaria apenas à Lélli Lu e às coisas de casa (lógico. hehehehe...). Mas a sua história é um exemplo, Thiiiii!!! Você encarou!!! Sinto que em pouco tempo tomarei a minha decisão! Aiiii, que vontade de te dar um abraçoooooooo!!! \______o______/

Thica disse...

Thiara, a cada dia gosto mais do seu blog. Esse post é mais um motivo. Largar tudo e apostar no que gosta de fazer... isso é o que vale. Larguei tudo em janeiro desse anos, cancelei meu registro no conselho e tou investindo muitos neurônios e muitas horas de bunda colada na cadeira para fazer algo que valha a pena, que justifique a mudança. Minha compensação é parecida com a sua: não sei o que é amolação de trânsito e nem de chefe chato. E ainda trabalho de pijama o dia todo!
Desejo a vc muito sucesso!
Beijin.

Thiara Ney disse...

Ai gente, fiquei super feliz com os coments!
Glau, a gente se parece tanto, né!? ADORO!
Carol e Rednata, qdo as pessoas me diziam que eu tinha mta coragem pra sair da empresa eu costumava dizer que na verdade era preciso mto mais coragem para ficar lá. =)
Si, mostra pro seu pai sim. Meu marido também sempre me apoiou, e apoia até hoje, e isso faz TODA a diferença. Ele acredita em mim! =)
Thica, é isso aí! A nova vida nào tem preço, né?!

Bjos meninas!
Thiara